Segunda-feira, 20.07.09

Com a chegada da silly season ao Algarve, apetece ir a Lisboa. Este fim-de-semana fui, de comboio. Sai em Sete Rios para me "transbordar" para a linha de Sintra, e a viagem de alguns minutos até Massamá-Barcarena, foi das experiências mais Edgar Allan Poescas que vivi nos últimos 41 de 41 anos. Desconheço se por azar, instalei-me numa carruagem que se parecia com uma reunião de condomínio em Albufeira, mas em "mau". Em vez de Ingleses, Irlandeses, Escoceses, Holandeses e Alemães, pululavam espécimes da cor do ébano, de tudo o que é Palop’s, falando tão alto (de fazer vergonha à Júlia Pinheiro) vários dialectos e exprimindo outras tantas barbaridades, que pela primeira vez entendi a expressão que descreve a incapacidade de ouvir o próprio pensamento. A par deste cenário, junte-se o espaço não arejado e sem ar condicionado e o constante rodopio de gaiatos/as em fuga aos revisores.

Existem determinados assuntos, cujo interesse é indiscutível, mas que são exageradamente horríveis para as necessidades da ficção legítima. O simples bloguista deve evitá-los, se não quer arriscar-se a ofender ou a repugnar quem o lê. Apenas são tratados com decência quando a majestade severa da verdade os santifica e sustenta. Vibramos por exemplo com o “sofrimento agradável” mais intenso, quando lemos descrições da passagem do Beresina, do terramoto de Lisboa, dos Távoras, da peste de Londres, da chacina de S. Bartolomeu ou da asfixia de 123 prisioneiros no buraco negro de Calcutá. Mas nestes relatos é o facto, é a realidade, é a história que estimula o nosso interesse. Enquanto invenções, encará-los-íamos simplesmente com horror.

Esta viagem não é ficção, e o que lhe dá verdade, é o resultado do lado negro da expansão Portuguesa e de séculos de colonização?

Estou certo que o horror que os antepassados desta gente sentiram é, incomensuravelmente, maior que o meu nesta viagem. Nada do que se passou na dominação colonial pode ser considerado aceitável, moral, perdoável,... mas não legitima o clima de terror e intimidação que se vive neste transporte.



publicado por rais parta ó miúdo! às 23:59 | link | comentar | clientes (1)

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